Cacos de vidro voando, mundo girando. O céu do Tennessee estava limpo naquela época do ano, e logo depois a calçada suja do beco parecia cada vez mais próxima. O baque foi doloroso, mas amenizado pela imposição do ombro e o rolamento aprendido nos fuzileiros. Nick sentiu os arranhões pelo corpo e rasgões nas roupas, e olhou para o braço. Fratura exposta.
…
Os últimos eventos envolvendo um padre fantasma maluco tinham determinado o fim do tempo de May em Memphis. Era uma cidade repleta de casos, mas depois de três monstros Nick já dizia que era hora de cair na estrada. Para um caçador, é perigoso permanecer muito tempo em um só lugar – a polícia e os birôs de investigação não são compreensivos, e mesmo com o xerife acobertando, uma hora alguma merda ia bater no ventilador. Portanto, era só Jeff se curar dos ferimentos sofridos com a garra do wekufe e eles iam seguir em frente.
Antes, May precisava pegar as coisas do tio, morto há poucos dias, para ter o que colocar no túmulo. Ele seria enterrado junto à irmã, a que criara a própria May; mas longe dos ancestrais, já que não havia como enviar os dois à China. Além disso, quando estava vivo, Chang dava muita importância a uma agenda, e ela queria procurar lá alguma pista sobre a fantasma que o perseguia.
Nicholas arrombou a fechadura com facilidade, mas May nem ficava mais surpresa com esse tipo de coisa. O apartamento ainda estava do jeito que os dois deixaram, com o sal espalhado e as marcas de luta. Com a multa absurda paga ao senhorio, eles podiam até reformar tudo, se quisessem. A chinesa deixou Nick juntando porta-retratos e penduricalhos na sala e foi ao quarto procurar a agenda. Juntou alguns livros velhos e outras coisas importantes em uma caixa, e coisas que iria doar ou jogar fora em outra. Empilhou e levou de volta para a sala, falando alto e animadamente sobre rodovias e motéis de quinta.
E aconteceu. Foi tão rápido que May só teve um vislumbre do homem alto na porta do apartamento, antes dele fazer um gesto no ar e Nick simplesmente ser arremessado pela janela, sem que ninguém o tocasse. Largou as caixas e levou a mão à cintura para pegar a arma, mas aqueles segundos de hesitação a deixou em desvantagem. Com mais um gesto, o sujeito a jogou na parede e se aproximou, segurando seu pescoço.
- Você tem algo aí que eu quero.
May não sabia se estava sem ar pelo medo ou pelo estrangulamento, mas não pôde responder ou lutar. O homem tateou seu corpo e encontrou a agenda do seu tio no bolso do casaco. Deu um sorriso, guardou o livrinho e saiu assobiando. A estranha força invisível largou a garota assim que ele desapareceu no corredor, e ela saiu correndo pela escada de incêndio. Encontrou Nick ainda desnorteado, sangrando muito e tentando sair do beco. Os dois pegaram o carro e correram para o hospital, onde o caçador recebeu cuidados.
Mais tarde, em uma lanchonete.
- Fico imaginando o que aquele cara vai fazer com a agenda. Achei que o problema do meu tio era com os mortos, não com os vivos.
- Eu tenho algumas suspeitas nada boas, May. Ele tinha alguma coisa peculiar?
A chinesa pensou um pouco.
- Agora que você falou… – titubeou. – Por um momento, quando ele sorriu pra mim, aconteceu algo esquisito com os olhos dele.
- Mudaram de cor?
- Ficaram totalmente pretos.
- Oh, merda.
A reação de “fudeu” quando se vê alguém com olhos mudando de cor é sempre a mesma. =D
Pode crer!
Acabei de ler os três capítulos mais esse. Dan, que crônica maneira. Tá demais. No aguardo pra continuação \o