História Inacreditável, por Jeff Samson

Toda vez que conto esta história para alguém sou taxado como drogado ou louco varrido. Bom, mas eu vou tentar pela última vez explicar o que aconteceu com a paciência do mundo todo, vamos lá.

Eu estava mais uma vez viajando em minha pick-up através do deserto de Nevada, próximo à região do Vale do Fogo. Eu procuro meu maço de cigarros e acabo encontrando perto do acelerador e penso: “maldito Nick, fica tentando esconder meus cigarros toda vez que entra nesse maldito carro”. Eu ascendo um cigarro e encosto o braço na janela do carro continuando com a viagem tranqüila.

Mas a tranqüilidade estava com os segundos contados. Quando eu chego bem perto do Vale, minha querida namoradinha, minha pick-up foi alvejada por muitos tiros de uma metralhadora muito poderosa, os dois pneus traseiros estouram e eu tenho que encostar para não capotar. Depois de encostar e me esconder atrás da pick-up, os tiros de metralhadora cessam.

Jeff

Daí eu pego a Penélope, meu fuzil M4, coloco um cartucho de balas novo e corro para pegar cobertura numa pedra grande. Os tiros continuam e um me acerta no peito, a sorte é que eu estava de colete kevlar, santo colete. Continuei correndo e pegando cobertura dos tiros. Quando eu cheguei numa distância segura, acertei a metralhadora, era uma maldita gatling, pra ser mais preciso, parecia uma M134D Gatling, eu vi uma dessas quando servi o exército há 9 anos atrás.  Quando eu acertei a gatling com a Penélope, ele parou de atirar com a metralhadora e veio se aproximando, com um fuzil também. Só que, amigão, Penélope é uma M4, ganha de qualquer Ak-47 fudida. Eu acertei ele enquanto ele corria, só que o miserável também estava de colete a prova de balas e da distância que eu estava, não conseguia acertar em outro lugar se não seu peito, e ele também já tinha me acertado no peito, e agora um tiro no meio da coxa, desgraçado. O tiroteio durou até estarmos a 12 metros um do outro, cada um em uma pedra grande. Quando cessou os tiros, por que a danada da Penélope tinha que emperrar numa hora que eu mais preciso dela, eu tinha que distraí-lo para tentar desemperrar o fuzil, então eu disse:

- Quem porra é você e o que porra eu fiz para você querer me “fuzilar” desse jeito, caralho?!

- Eu sou o filho da família que você assassinou brutalmente em Memphis, seu maldito! – falou o desgraçado, com uma voz de pirralho com espinha na cara ainda e cheiro de fraldas – E agora você vai pagar pelo que fez, agente Gibbs!

- Cara, desculpa, mas acredite ou não eu não tive culpa do que aconteceu! – eu tentei dialogar com o garoto – Vamos abaixar as armas que eu te explico direitinho.

- Não, seu filho da puta, só por que você é federal você acha que pode sair matando os outros assim, é? Você não vai sair daqui vivo! – falou o garoto com muita raiva, enquanto corria para me surpreender.

Daí eu larguei o fuzil, e deixei a Magnum .40 bem apontadinha para ele quando ele ficasse na minha frente, dentro da jaqueta. Ele ficou na minha frente e apontou aquela kalashnikov ferrada para a minha cara e ficou a uns três metros de mim, ele parecida cansado e muito nervoso. O garoto tinha aparentemente uns dezoito anos e parecia o Schwarzenegger no filme do Predador, todo cheio de lama na cara e nos braços, usando roupa de fuzileiro e tudo, com uma cartucheira no peito e o fuzil na mão, ele tava quase chorando de raiva e olhando para mim, ai ele falou:

- Meu nome é Jim, e o senador Benson era o meu pai, e você e seus amigos mataram todos da minha família! Inclusive o meu irmãozinho Steve! Agora você vai morrer dolorosamente! – falou o jovem fuzileiro, furioso.

Ai eu pensei: “Que irmãozinho do satã esse Steve, hein?”. Depois, quando eu acho que ele vai atirar em mim, eu cento do dedo na Magnum e acerto logo o ombro dele, eu sei que acertei em cheio por que um tiro de Magnum ou você erra, ou você explode uma parte de uma pessoa, e como pegou de raspão, fez uma “vala” no ombro do garoto que atirou pra cima e tentou se esconder dos meus tiros, gritando de dor. Quando ele volta para um abrigo, eu pego abrigo também, dele, e digo:

- Brother, me escuta! Vamos parar com os tiros, nós estamos no meio do nada e se a gente matar um ao outro, o que matou vai morrer se arrastando pelo deserto! Para com isso e vamos conversa!

Quando eu digo a última palavra eu escuto o garoto sofrer uma pancada na cabeça e ser arrastado para dentro da mata do Vale do Fogo. Eu grito o nome do garoto e saio correndo, eu não chamo aquilo de correr, eu estava mancando atrás do Jim mata à dentro.

O fuzileiro sumiu de um jeito, que nem as manchas de sangue do ombro dele tinha mais. Alguma coisa muito obscura tinha levado o garoto e eu não podia deixar ele ser seqüestrado assim, sem mais nem menos, ainda mais quando eu fiz o que fiz com a família dele, eu tinha o dever, e mesmo fudido e mancando, encarei e sai pela mata.

Depois de uns dez minutos pela mata, achei uma saída para uma vila abandonada, parecia que eu tava no velho oeste, com casas antigas e sinistras. Parecia que cada casa tinha alguma coisa me espreitando, só esperando eu cair pra me pegar. Quando, de repente, um cara grande sai de uma casa com uma pá na mão e tenta me bater, gritando como se fosse um demente. Bicho, é sério, a partir daqui você vai achar que eu estava chapado ou coisa assim.

O cara parecia o Google, do filme “The Hills Have Eyes”! Porra, não ri disso não brother, é sério. Ele tentava me acertar e não conseguia, quando chegou um irmão dele, só que menor, com um bastão de baseball e esse, sim, conseguiu dar uma mesmo na minha têmpora. Eu apaguei.

Eu acordo. Com uma puta dor de cabeça e dentro de um freezer tampado, com um cheiro de sangue misturado com carne podre, a sorte era que o freezer não tava funcionando e, quando eu olho o que estava embaixo de mim, eram cabeças! Muitas cabeças! Brother, naquele exato momento eu me lembrei do filme e agora acredito que aquele maldito filme era um “back” enrolado num jornal, do tipo, baseado em fatos reais, mesmo…

Se você não para de rir eu não conto mais, Nick. Vai parar? Muito bem, continuando. Eu dei uns três socos e uns dois chutes na tampa do freezer, e a tampa caiu do lado. Quando eu levanto, eu estava num corredor, dentro de uma das casas da vila, daí eu penso: “Que merda, não foi um pesadelo, eu ainda to no filme!” Pelo menos consegui um bastão de baseball que estava encostado na parede, eles eram realmente dementes, descuidados e canibais, só se preocupavam em comer gente.

Eu continuei pelo corredor, cheguei a sala de estar onde estava um rádio antigo, tocando uma música que não sai da minha cabeça. Naquela hora não sabia qual era a cantora, nem o nome da música, mas ela dizia: “It’s my party and i’ll cry if i want to, cry if i want to, cry if want to, you would cry tôo if it’s happened to you”. Quando eu estou cruzando a sala, uma velha parecida com os dementes, usando uma camisola e segurando minha Magnum como se fosse um martelo, grita e corre em minha direção.

Ela se desesperou e correu sem se proteger, por isso, eu acertei a cabeça dela com o taco de baseball em cheio, quando ela caiu no chão desacordada e sangrando, eu peguei minha Magnum e, graças a Deus, estava carregada.

Eu aumento a música do rádio que parecia interminável, devia ser por que só tinha aquela música na fita ou o rádio estava quebrado, mas a música era o de menos daquela hora, eu ainda estava com um tiro na perna e com a cabeça latejando de dor. Decide então subir as escadas pra ver se eles colocaram a Penélope lá em cima, junto com o resto das minhas coisas. Cheguei em um quarto pequeno, com três camas, e, em cima de uma das camas, lá estava, minha mochila com muita das minhas coisas, inclusive alguns equipamentos de caça.

O gigante retardado

Quando eu estou ajeitando a mochila para dar o fora dali, alguém chuta a porta violentamente. Quando eu viro, vejo a morte chegando. O cara era grande, tipo uns 2 metros de altura, muito mais horroroso do que os outros dementes, tava com a minha Penélope na bandoleira e tava segurando um machado de lenhador banhado de sangue.  Ele gritou e desceu o machado em mim, eu saltei pro lado e ele quase partia uma das camas no meio. Eu até pensei em correr, até tive oportunidade, mas ele estava com a Penélope, brother, e para conseguir aquele M4 eu sofri tanto que eu não podia perder daquele jeito, então eu voltei e tentei acertar ele, mas ele, ao contrário do que parecia, era esperto e me deu um chute na boca do estômago que eu pensei que ia cuspir o próprio. Com o chute do gigante, eu voei e bati na parede, ele continuou gritando comigo, me levantou pela gola da camisa e encostou-me na parede com uma mão só, e com a outra suspendeu o machado como quem ia dar o golpe final, quando eu lembrei que ainda estava com a Magnum na mão e esperei ele pensar que estava terminado, e antes que ele descesse o machado na minha cabeça, eu explodir os miolos do gigante por todo o quarto, que já era imundo.

Aliviado e ao mesmo tempo com muito medo, pois os outros dois poderiam ter escutado o estampido do revolver e provavelmente me pegariam, mas algo me aliviou, a Penélope estava comigo, e quando ela está nas minhas mãos, não tenho medo de nenhuma criatura que sangre!

Deixando o quarto trancado, sai pela janela e desci pelo telhado, já dentro de uma área de mato alto. Eu não fui pelo meio da cidadezinha, e sim por fora. Pois podia ouvir latidos de cães e vi os dois correndo para a casa que eu estava saindo, pelos fundos.

Mas, a partir desse momento eu odeio cachorros, pois não é que um dos malditos cães me viu e começou a latir em minha direção, foi quando eu corri sem pensar, eles estavam armados com espingardas e começaram a atirar. Um dos tiros acertou meu ombro e eu soltei a mochila. Parei, virei e dei uma saraivada de tiros em direção da cidade, me parecia ter acertado um deles, mas não queria ficar para conferir, continuei mancando em direção a mata.

Depois de correr uns quinze minutos pela floresta adentro, eu tinha sangrado muito, pela perna e agora pelo ombro, e minha visão estava turva e meus ferimentos doíam, quando eu paro de correr e fico andando desequilibrado, até finalmente apagar.

Agora, vem a parte mais confusa de toda está história. Eu acordo do lado de um… não sei se digo… não ria Nick… mas era do lado de um ÍNDIO!!! Um índio americano vestindo aquelas roupas indígenas antigas e toscas, com direito a penachos e pinturas na cara. Eu acordo e digo:

- Aonde eu estou? Quem é você?

- Atahualpa, o espírito dos ventos – fala o índio, e logo depois se desvanece numa névoa!!!

É sério… Nick, não to inventando não! Ah, que se foda! Deixa eu terminar.

Jenny

Ai logo depois do espírito ter ido embora, eu percebi que eu estava totalmente curado e renovado, daí lá vinha minha Pick-up sendo dirigida por quem? Advinha… não, não era aquele travesti de Little Rock… era a Jenny, porra! Ela chega, desce do carro todo novinho como se não tivesse sofrido nenhuma bala, joga a chave para mim e diz:

- Tá entregue, ambos consertados, você e a pick-up. Me deve outra viu, grandão?

- Como você faz isso. Sempre perto de mim quando eu mais preciso e sempre salvando o meu rabo. – Eu pergunto olhando e tateando a Devil’s Dick, vendo se estava mesmo nova.

- Eu apenas estava passando e vi sua pick-up, que por sinal é inconfundível, e segui o rastro de sangue que você deixou até encontrar você na mata, caído, desacordado e sangrando… sei lá, vai ver eu sou seu anjo da guarda – Ela responde meio que  querendo se esquivar da pergunta e com um sorrisinho sacana na boca – Por falar nisso, cara, que tipo de “super-encrenca” você se meteu dessa vez?

- Eu teria que passar uma semana lhe explicando – Eu respondo todo errado e sem jeito – Mas, mais uma vez obrigado por ter me salvado! De novo! Tenho que parar de te fazer me salvar toda vez. Quanto tempo eu fiquei aqui, me recuperando?

- Uma semana inteirinha – responde ela, já entrando no carro – enquanto isso eu providenciei um mecânico para o seu bebezinho aqui, você me deve uns mil e quinhentos dollares, mil pelo conserto e quinhentos para o mecânico se calar por causa dos furos de bala.

- Eu te pago assim que chegarmos numa cidade onde tenha bancos, hotéis e muita cerveja – Eu falo já ligando o carro e saindo dali – Afinal, quem era aquele índio? Atahupama? Atahualla? Sei lá o nome dele.

- Que Índio? Jeff, você precisa descansar mais, seu ferimento na cabeça pode ter sarado, mas acho que rolou uma viagem grande ai – Ela fala enquanto liga o rádio.

Nós chegamos na cidade e ela entra naquele carro luxuoso dela, depois de receber meus mil e quinhentos ela vaza dali, e eu fico me perguntando, como é que ela sabe sempre onde eu estou. Daquela vez com o Murdock ela me salvou, mas eu pensei que foi você quem tinha pedido a ela, Nick, mas você não fala com ela já faz alguns meses, e agora de novo. Acho que tem algo de muito estranho com ela, mas eu não reclamo, enquanto ela me salvar está bom, eu vou acabar me acostumando.

Pois é irmão, saí do hospital e aconteceu isso tudo comigo, aonde vocês estão? O quê? Um troll? E comeu o Mustang de May? Caralho meu irmão! Mas vocês mataram o infeliz? Certo, aonde vocês estão mesmo? Shawneetown, Illinois, ok, vou desligar e já estou indo para ai, não saiam daí que eu vou pegar vocês, falô.

Mas a tranqüilidade estava com os segundos contados. Quando eu chego bem perto do Vale, minha querida namoradinha, minha pick-up foi alvejada por muitos tiros de uma metralhadora muito poderosa, os dois pneus traseiros estouram e eu tenho que encostar para não capotar. Depois de encostar e me esconder atrás da pick-up, os tiros de metralhadora cessam.

Sangue no asfalto

Por Jeff Samson

26 de Agosto de 1999. 11h53 PM, Odessa, Texas.

Em três anos de carreira na SWAT, nunca tremi tanto e corri tão desesperado para encontrar o amor da minha vida, Madison. Ela me avisou muito para não ir e eu não precisava mesmo ter atendido aquela porra de ligação, mas era um grande amigo meu, o detetive Bill Davidson, que estava em apuros e precisava da minha ajuda. Daí Jeff, o grande “herói”, apenas com sua Magnum .40 e cinco balas, deixou sua mulher – seu maior tesouro – em casa, achando que  a treta não era grande. Como eu fui idiota.

Às oito e meia da noite, cheguei num armazém abandonado ao sul da cidade, onde encontrei o Bill escondido atrás de uma árvore com seu revolver calibre 38, tremendo e ensopado de suor. Ele disse que estava prestes a capturar o  “Cats Claw”, como era conhecido um assassino serial que já mandara oito pro saco em um mês sem ser apanhado, sem rosto e sem nome, praticamente um fantasma. Na investigação, meu amigo começou a seguir um cara suspeito em uma boate vagabunda. Depois de algumas doses de uísque, o sujeito saiu com duas vadias e Bill o seguiu até este armazém, onde ouviu gritos das garotas e um rugido assustador, tipo um cão feroz. Talvez o maníaco usasse o bicho para se livrar dos corpos, ou seja lá o que aquele doente fazia. Eu queria acreditar nessa merda enquanto prosseguíamos, mas não se podia ouvir latidos lá dentro, só o som da carne sendo rasgada e grunhidos de uma fera que começaram a endoidar a gente.

Madison
Madison

Bill não queria a polícia envolvida ainda. Ficou com medo de não dar certo e ele ser taxado como louco por isso, então preferiu me chamar. Eu, já impaciente com a situação, preparei a arma, e comecei a invadir o local. Bill me acompanhou, cobrindo a minha retaguarda. Invadir uma área perigosa sem apoio, medidas preliminares e eliminação de riscos era algo totalmente fora do nosso estilo, e aquilo me deixava nervoso, especialmente com o fato de que entrávamos nos domínios de um assassino doido que rosnava como um rottweiler – ali ele estava em casa e nós, no escuro.

Entramos pelos fundos do armazém, o mesmo caminho que o assassino pegara. Bill respirava muito alto e tremia muito, por isso o que quer que estivesse lá dentro sabia que nós estávamos invadindo e parou com o barulho. Tentei acalmar Bill com um olhar severo e me pus à frente, vigiando à frente e em cima, enquanto ele cuidaria da retaguarda e dos flancos.

No vão principal, muito sangue, lixo e pedaços de carne humana no chão. Serial Killer é pouco: o sujeito era uma versão espalhafatosa do Hannibal, isso sim. Enquanto eu analisava o sangue ainda fresco, Bill se recostou em mim, tremento e resfolegando como em um choro amedrontado. Olhei para trás a tempo de vê-lo ser arremessado sobre um amontoado de barris e caixotes perto da parede à direita. Fora pego por um brutamontes de quase dois metros de altura vestindo em trapos, com cabelos na altura do ombros, olhos amarelados e presas. Ele estava banhado em sangue e ainda mastigava um pedaço de carne, sorrindo debilmente pra mim.

– Parado aí, amigo! – voz de prisão de praxe. A coisa inclinou sua cabeça para a esquerda e, em uma nesga de sorriso, murmurou minhas palavras como se duvidasse delas, e veio lentamente em minha direção. Sem pestanejar meti três balas no seu peito, mas o cara tinha o peito de aço! Ele nem pareceu sentir os tiros que derrubariam até um elefante, e continuou a se aproximar ainda sorrindo. Estarrecido como eu estava, quase nem ofereci reação quando ele me segurou pelo pescoço e me ergueu com apenas uma das mãos, enquanto suas unhas de gato estraçalhavam a pele do meu braço direito. Eu não podia gritar com seu aperto, mas Bill quebrou uma caixa de madeira em suas costas para chamar a atenção e ele afrouxou. Porém, fui arremessado no velho amigo e nós fomos ao chão feito dois bichos atropelados. O filho da mãe limpou o sangue das mãos e olhou pra mim como se me conhecesse há tempos, mas eu não fazia a menor ideia do que era aquela merda toda.

– Você é filho do maldito Tony Samson, né? Parece que nossas linhagens se cruzam de novo, veja só.

Apavorado que estava, não ouvi direito mais nenhuma palavra que ele continuou a falar sobre mim e meu pai e estendeu suas garras na nossa direção. Bill tinha quebrado a perna esquerda na queda e parecia prestes a apagar, nos tirando as chances de puxar o carro. De repente um estrondo nos deixou com o ouvido zunindo, e tivemos a impressão de ver a coisa sendo baleada nas costas e fugir como um cão ferido. Nosso salvador, um velhote com a cara bastante marcado, me levantou e ajudou a fazer uma tala na perna de Bill.

– Leve seu amigo para o hospital, garoto – disse ele – Eu assumo daqui.

Harvey
Harvey

Antes de sair, ele ainda me jogou um cartão com o nome Harvey Rickman e um número de telefone. Ao chegar no hospital com Bill e encaminhá-lo, liguei para o sujeito, que me disse estar seguindo os rastros do assassino. Lembrei que a coisa parecia me conhecer – e ao meu velho – e mencionei isso a ele, e Harvey disse que a criatura poderia querer retaliar a mim ou a algum ente querido, porque provavelmente saberia onde eu morava. Imediatamente pensei em Maddie, que agora corria perigo. Corri para o carro e enquanto dirigia para casa, liguei desesperadamente para saber se estava tudo bem com ela, mas ninguém atendia. Descontrolado, bati com a picape em um ônibus e entrei de vez em uma loja.

Eu estava tonto e machucado, mas não podia apagar de jeito nenhum. As pernas funcionavam, saí mancando feito um louco, correndo a pé. Chegando em casa, tudo revirado, a porta arrombada e a janela quebrada. “Fugiu, boa garota”, pensei. Avistei rastros de sangue, rezando para que fossem do maníaco, e os segui pela vizinhança que dormia sem saber do demônio que rondava o bairro. Na rua de trás, avistei Harvey esbaforido e tive a pior visão da minha vida, que destruiu de vez o cara feliz, um amoroso marido e um policial exemplar que eu era até então.

Maddie estava em cima de um carro, vermelho do sangue da minha mulher, com o homem uivando sobre seu corpo.

Eu estava quebrado. Enquanto corria debilmente em direção a ela, Harvey atirou meticulosamente na testa e no peito do monstro, que caiu inerte. Eu chorava e uivava a morte da minha esposa, portanto lembro apenas que o velhote disse que não podia ficar para encarar a polícia.

Uma semana depois, o telefone tocou:

– Espero que seja rápido – atendeu um ranzinza Harvey.

– Harvey? É o Jeff, o cara de Odessa de uma semana atrás, lembra de mim? – perguntei, com voz trêmula e rouca.

– Ah… Que merda, moleque! São seis horas da madrugada cara, o que você quer?

– Eu cansei de sofrer pelo que aconteceu, quero saber o que era aquilo, por que matou minha mulher e o que tinha a ver comigo.

– Heh, muito bem, muito bem. Qual a sua profissão, garoto?

– Caí fora da SWAT, senhor – disse com alívio – por quê?

– Muito bom, porque a minha profissão é a melhor para alguém na sua situação. Venha para cá, deixe sua vida aí em Odessa, traga suas coisas para entrar em uma nova merda. – parecia até que o velhote estava feliz com a notícia.

– Já tô na estrada – desliguei.

Ganhei o mundo a bordo da minha velha picape preta reformada, agora com o nome de Devil´s Dick – meu jeito de dar um foda-se ao mundo –, escutando Cash e com a foto de Madison pendurada no retrovisor, sorrindo pra mim como sempre vai ser nos meus pensamentos.

– Acho que o Harvey só não te ensinou uma coisa.

– O quê?

– A prestar mais atenção na vigília. Só escutei isso tudo porque você me pagou aquelas cervejas, mas já é quase hora do fantasma atacar.

– Três da madruga,certo?

– E meia.

– Até agora nada. Tá sentindo esse frio desgraçado?

– É ele. Vamulá.

– Espera aí Marshall, você… Porra, sua piranha lésbica! Urgh!

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