Fantasmas de si

Trecho obtido do diário de May Ling Coleman. Essas passagens foram obtidas através de páginas rasgadas e meio chamuscadas achadas em uma cena de crime. Data não determinada. Localização: Odessa – Texas

É impressionante como os dois mudaram com a morte de suas esposas. Elmo Jeff era um rapaz sorridente de barba feita e bem vestido. Nick era bem humorado e parecia descontraído nas fotos. As filhas dele eram duas bonequinhas – sua esposa, Cindy? Jovem e cheia de vida. Os rapazes hoje são sombras do que foram. É triste saber disso, ouvir a Sra. Anna May contando como tudo era diferente com saudade… Isso me faz pensar: eu mudei?

Óbvio que sim, só que eu não fui fudida arrasada como eles. Ok! Quem eu estou tentando enganar mesmo? Só quem vai ler essa merda sou eu (pra que eu escrevo?). Eu fui e continuo arrasada. Perder meus pais foi péssimo, mas eu era uma menininha e tinha tia Mei Mei, mas perdê-la e ao tio Cheng foi mais do que simplesmente doloroso, foi insano. Ainda é. Eu sinto falta de ar e tenho vontade de chorar toda vez que eu lembro que estou em um mundo sem eles. E ainda pior que isso é não saber o que está acontecendo comigo, é como se eu estivesse me afogando em um mar coberto de fogo e enxofre, respirar é tão ruim quanto me afogar, e eu queimo e gelo ao mesmo tempo. Eu me afogo em piadas sem graça, bebedeiras e sexo  sabendo que não existe mais um local para mim.

Vendo-os com a família eu noto o que perdi e nunca mais terei de volta: um lar. Eles são gentis comigo, mas eu sou uma intrusa em seu lar. E sei que Nicholas jamais vai ter comigo o que teve com Cindy, é lógico e justo. E mesmo assim eu me conformo com o pouco que ele tem a me oferecer, finjo que suas palavras são verdadeira e que é o suficiente para mim. Ouço as conversas vazias de futuro de nós dois tendo filhos juntos, sabendo serem apenas palavras ditas sem força por alguém tão desesperado quanto eu.  E todas as noites eu me calo e choro lamentando meu destino amaldiçoado. Mas no dia seguinte todos estamos sorridentes para continuar o trabalho.

The real first hunt – Parte 01

A pouca luz que iluminava o armazém vinha das janelas altas e das lanternas que carregavam. Olivia tinha sido clara: precisavam ser furtivas, pois policiais ainda vigiavam o local. Angela bem que tentou, mas enquanto tentava olhar o caminho à frente, tropeçou em uma viga de madeira que cruzava o armazém. Mesmo no escuro, sentiu o olhar repreenssivo de Olivia.

- Você quer mesmo que sejamos presas, não é?
- Eu não vi, porcaria. – falou, enquanto se recompunha. – E aqueles policiais estão ocupados demais com as rosquinhas deles.
- Continue assim e você vai conseguir matar nós duas. Venha, levante-se.

O corpo havia sido encontrado no andar de cima, a área de repouso dos funcionários. Os jornais disseram que foi um crime brutal, e suspeitavam de um serial killer. Angela, entretanto, tinha outras suspeitas. Os ataques sempre à lua cheia indicavam um outro tipo de aberração.

- Chegamos, mocinha. Agora eu preciso dos seus olhos bem atentos, e seu cérebro funcionando. Me diga o que diabos houve aqui.

Prendeu os cabelos ruivos num rabo de cavalo improvisado e retirou a câmea fotográfica da mochila. O flash do aparelho a permitia ver melhor os detalhes da cena, e assim que a ligou, preferia não ter visto. Sangue seco pelas paredes e poucos móveis da sala. Uma cômoda havia sido arremessada contra a parede, e jazia espatifada. No chão, uma poça de sangue crescia pelo LCD da câmera. Segurando o jantar no estômago, Angela apontou o óbvio:

- Ela morreu ali.
- Mantenha a comida no lugar, Angie. Nós ainda vamos dar um jeito de investigar o corpo.

Mas Angela já não ouvia. Com cuidado, vestiu as luvas de látex que acompanhavam seu kit de investigação criminal. Não se preocupou em ligar o EMF – sabia que ali não encontraria ondas eletromagnéticas, mas sim outros tipos de amostras. Andou até os pedaços da cômoda e os separou com cuidado: uma pessoa normal não teria condições de arremessar o móvel daquele jeito. Separando metodicamente os pedaços, a jovem pôde remontar bem a marca de garras.

Voltou o olhar para o resto do cômodo. Não havia sinais claros de arrombamento, mas definitivamente uma luta brutal acontecera ali. Uma mesa de metal virada, cadeiras quebradas por impacto, uma cama totalmente desfeita. Entretanto, os degraus da escada estavam intactos, sem rastros ou vestígios de sangue.

Olhou as janelas de madeira e no parapeito, viu a evidência que queria: uma leve marca de sangue, como se alguém tivesse pulado de lá. Olhou para o chão conforme os óculos escorregavam pelo nariz. Era uma queda e tanto. Não foi um ataque casual; o rapaz que morreu não a uma vítima aleatória. O lugar era afastado de tudo, ninguém ouviria gritos ou sons de luta.

- É o nosso cara, CSI Spica? – a ironia de Olivia a tirou dos pensamentos e teorias. Mas pensando bem, gostaria de ter um ar de Grissom.
- Onde está o corpo, você sabe?
- Na perícia, imagino. Ou no departamento legal. Por quê?

A jovem olhou preocupada, ajeitando os óculos.

- São dois deles. E nosso morto deve estar acordando agora.

História Inacreditável, por Jeff Samson

Toda vez que conto esta história para alguém sou taxado como drogado ou louco varrido. Bom, mas eu vou tentar pela última vez explicar o que aconteceu com a paciência do mundo todo, vamos lá.

Eu estava mais uma vez viajando em minha pick-up através do deserto de Nevada, próximo à região do Vale do Fogo. Eu procuro meu maço de cigarros e acabo encontrando perto do acelerador e penso: “maldito Nick, fica tentando esconder meus cigarros toda vez que entra nesse maldito carro”. Eu ascendo um cigarro e encosto o braço na janela do carro continuando com a viagem tranqüila.

Mas a tranqüilidade estava com os segundos contados. Quando eu chego bem perto do Vale, minha querida namoradinha, minha pick-up foi alvejada por muitos tiros de uma metralhadora muito poderosa, os dois pneus traseiros estouram e eu tenho que encostar para não capotar. Depois de encostar e me esconder atrás da pick-up, os tiros de metralhadora cessam.

Jeff

Daí eu pego a Penélope, meu fuzil M4, coloco um cartucho de balas novo e corro para pegar cobertura numa pedra grande. Os tiros continuam e um me acerta no peito, a sorte é que eu estava de colete kevlar, santo colete. Continuei correndo e pegando cobertura dos tiros. Quando eu cheguei numa distância segura, acertei a metralhadora, era uma maldita gatling, pra ser mais preciso, parecia uma M134D Gatling, eu vi uma dessas quando servi o exército há 9 anos atrás.  Quando eu acertei a gatling com a Penélope, ele parou de atirar com a metralhadora e veio se aproximando, com um fuzil também. Só que, amigão, Penélope é uma M4, ganha de qualquer Ak-47 fudida. Eu acertei ele enquanto ele corria, só que o miserável também estava de colete a prova de balas e da distância que eu estava, não conseguia acertar em outro lugar se não seu peito, e ele também já tinha me acertado no peito, e agora um tiro no meio da coxa, desgraçado. O tiroteio durou até estarmos a 12 metros um do outro, cada um em uma pedra grande. Quando cessou os tiros, por que a danada da Penélope tinha que emperrar numa hora que eu mais preciso dela, eu tinha que distraí-lo para tentar desemperrar o fuzil, então eu disse:

- Quem porra é você e o que porra eu fiz para você querer me “fuzilar” desse jeito, caralho?!

- Eu sou o filho da família que você assassinou brutalmente em Memphis, seu maldito! – falou o desgraçado, com uma voz de pirralho com espinha na cara ainda e cheiro de fraldas – E agora você vai pagar pelo que fez, agente Gibbs!

- Cara, desculpa, mas acredite ou não eu não tive culpa do que aconteceu! – eu tentei dialogar com o garoto – Vamos abaixar as armas que eu te explico direitinho.

- Não, seu filho da puta, só por que você é federal você acha que pode sair matando os outros assim, é? Você não vai sair daqui vivo! – falou o garoto com muita raiva, enquanto corria para me surpreender.

Daí eu larguei o fuzil, e deixei a Magnum .40 bem apontadinha para ele quando ele ficasse na minha frente, dentro da jaqueta. Ele ficou na minha frente e apontou aquela kalashnikov ferrada para a minha cara e ficou a uns três metros de mim, ele parecida cansado e muito nervoso. O garoto tinha aparentemente uns dezoito anos e parecia o Schwarzenegger no filme do Predador, todo cheio de lama na cara e nos braços, usando roupa de fuzileiro e tudo, com uma cartucheira no peito e o fuzil na mão, ele tava quase chorando de raiva e olhando para mim, ai ele falou:

- Meu nome é Jim, e o senador Benson era o meu pai, e você e seus amigos mataram todos da minha família! Inclusive o meu irmãozinho Steve! Agora você vai morrer dolorosamente! – falou o jovem fuzileiro, furioso.

Ai eu pensei: “Que irmãozinho do satã esse Steve, hein?”. Depois, quando eu acho que ele vai atirar em mim, eu cento do dedo na Magnum e acerto logo o ombro dele, eu sei que acertei em cheio por que um tiro de Magnum ou você erra, ou você explode uma parte de uma pessoa, e como pegou de raspão, fez uma “vala” no ombro do garoto que atirou pra cima e tentou se esconder dos meus tiros, gritando de dor. Quando ele volta para um abrigo, eu pego abrigo também, dele, e digo:

- Brother, me escuta! Vamos parar com os tiros, nós estamos no meio do nada e se a gente matar um ao outro, o que matou vai morrer se arrastando pelo deserto! Para com isso e vamos conversa!

Quando eu digo a última palavra eu escuto o garoto sofrer uma pancada na cabeça e ser arrastado para dentro da mata do Vale do Fogo. Eu grito o nome do garoto e saio correndo, eu não chamo aquilo de correr, eu estava mancando atrás do Jim mata à dentro.

O fuzileiro sumiu de um jeito, que nem as manchas de sangue do ombro dele tinha mais. Alguma coisa muito obscura tinha levado o garoto e eu não podia deixar ele ser seqüestrado assim, sem mais nem menos, ainda mais quando eu fiz o que fiz com a família dele, eu tinha o dever, e mesmo fudido e mancando, encarei e sai pela mata.

Depois de uns dez minutos pela mata, achei uma saída para uma vila abandonada, parecia que eu tava no velho oeste, com casas antigas e sinistras. Parecia que cada casa tinha alguma coisa me espreitando, só esperando eu cair pra me pegar. Quando, de repente, um cara grande sai de uma casa com uma pá na mão e tenta me bater, gritando como se fosse um demente. Bicho, é sério, a partir daqui você vai achar que eu estava chapado ou coisa assim.

O cara parecia o Google, do filme “The Hills Have Eyes”! Porra, não ri disso não brother, é sério. Ele tentava me acertar e não conseguia, quando chegou um irmão dele, só que menor, com um bastão de baseball e esse, sim, conseguiu dar uma mesmo na minha têmpora. Eu apaguei.

Eu acordo. Com uma puta dor de cabeça e dentro de um freezer tampado, com um cheiro de sangue misturado com carne podre, a sorte era que o freezer não tava funcionando e, quando eu olho o que estava embaixo de mim, eram cabeças! Muitas cabeças! Brother, naquele exato momento eu me lembrei do filme e agora acredito que aquele maldito filme era um “back” enrolado num jornal, do tipo, baseado em fatos reais, mesmo…

Se você não para de rir eu não conto mais, Nick. Vai parar? Muito bem, continuando. Eu dei uns três socos e uns dois chutes na tampa do freezer, e a tampa caiu do lado. Quando eu levanto, eu estava num corredor, dentro de uma das casas da vila, daí eu penso: “Que merda, não foi um pesadelo, eu ainda to no filme!” Pelo menos consegui um bastão de baseball que estava encostado na parede, eles eram realmente dementes, descuidados e canibais, só se preocupavam em comer gente.

Eu continuei pelo corredor, cheguei a sala de estar onde estava um rádio antigo, tocando uma música que não sai da minha cabeça. Naquela hora não sabia qual era a cantora, nem o nome da música, mas ela dizia: “It’s my party and i’ll cry if i want to, cry if i want to, cry if want to, you would cry tôo if it’s happened to you”. Quando eu estou cruzando a sala, uma velha parecida com os dementes, usando uma camisola e segurando minha Magnum como se fosse um martelo, grita e corre em minha direção.

Ela se desesperou e correu sem se proteger, por isso, eu acertei a cabeça dela com o taco de baseball em cheio, quando ela caiu no chão desacordada e sangrando, eu peguei minha Magnum e, graças a Deus, estava carregada.

Eu aumento a música do rádio que parecia interminável, devia ser por que só tinha aquela música na fita ou o rádio estava quebrado, mas a música era o de menos daquela hora, eu ainda estava com um tiro na perna e com a cabeça latejando de dor. Decide então subir as escadas pra ver se eles colocaram a Penélope lá em cima, junto com o resto das minhas coisas. Cheguei em um quarto pequeno, com três camas, e, em cima de uma das camas, lá estava, minha mochila com muita das minhas coisas, inclusive alguns equipamentos de caça.

O gigante retardado

Quando eu estou ajeitando a mochila para dar o fora dali, alguém chuta a porta violentamente. Quando eu viro, vejo a morte chegando. O cara era grande, tipo uns 2 metros de altura, muito mais horroroso do que os outros dementes, tava com a minha Penélope na bandoleira e tava segurando um machado de lenhador banhado de sangue.  Ele gritou e desceu o machado em mim, eu saltei pro lado e ele quase partia uma das camas no meio. Eu até pensei em correr, até tive oportunidade, mas ele estava com a Penélope, brother, e para conseguir aquele M4 eu sofri tanto que eu não podia perder daquele jeito, então eu voltei e tentei acertar ele, mas ele, ao contrário do que parecia, era esperto e me deu um chute na boca do estômago que eu pensei que ia cuspir o próprio. Com o chute do gigante, eu voei e bati na parede, ele continuou gritando comigo, me levantou pela gola da camisa e encostou-me na parede com uma mão só, e com a outra suspendeu o machado como quem ia dar o golpe final, quando eu lembrei que ainda estava com a Magnum na mão e esperei ele pensar que estava terminado, e antes que ele descesse o machado na minha cabeça, eu explodir os miolos do gigante por todo o quarto, que já era imundo.

Aliviado e ao mesmo tempo com muito medo, pois os outros dois poderiam ter escutado o estampido do revolver e provavelmente me pegariam, mas algo me aliviou, a Penélope estava comigo, e quando ela está nas minhas mãos, não tenho medo de nenhuma criatura que sangre!

Deixando o quarto trancado, sai pela janela e desci pelo telhado, já dentro de uma área de mato alto. Eu não fui pelo meio da cidadezinha, e sim por fora. Pois podia ouvir latidos de cães e vi os dois correndo para a casa que eu estava saindo, pelos fundos.

Mas, a partir desse momento eu odeio cachorros, pois não é que um dos malditos cães me viu e começou a latir em minha direção, foi quando eu corri sem pensar, eles estavam armados com espingardas e começaram a atirar. Um dos tiros acertou meu ombro e eu soltei a mochila. Parei, virei e dei uma saraivada de tiros em direção da cidade, me parecia ter acertado um deles, mas não queria ficar para conferir, continuei mancando em direção a mata.

Depois de correr uns quinze minutos pela floresta adentro, eu tinha sangrado muito, pela perna e agora pelo ombro, e minha visão estava turva e meus ferimentos doíam, quando eu paro de correr e fico andando desequilibrado, até finalmente apagar.

Agora, vem a parte mais confusa de toda está história. Eu acordo do lado de um… não sei se digo… não ria Nick… mas era do lado de um ÍNDIO!!! Um índio americano vestindo aquelas roupas indígenas antigas e toscas, com direito a penachos e pinturas na cara. Eu acordo e digo:

- Aonde eu estou? Quem é você?

- Atahualpa, o espírito dos ventos – fala o índio, e logo depois se desvanece numa névoa!!!

É sério… Nick, não to inventando não! Ah, que se foda! Deixa eu terminar.

Jenny

Ai logo depois do espírito ter ido embora, eu percebi que eu estava totalmente curado e renovado, daí lá vinha minha Pick-up sendo dirigida por quem? Advinha… não, não era aquele travesti de Little Rock… era a Jenny, porra! Ela chega, desce do carro todo novinho como se não tivesse sofrido nenhuma bala, joga a chave para mim e diz:

- Tá entregue, ambos consertados, você e a pick-up. Me deve outra viu, grandão?

- Como você faz isso. Sempre perto de mim quando eu mais preciso e sempre salvando o meu rabo. – Eu pergunto olhando e tateando a Devil’s Dick, vendo se estava mesmo nova.

- Eu apenas estava passando e vi sua pick-up, que por sinal é inconfundível, e segui o rastro de sangue que você deixou até encontrar você na mata, caído, desacordado e sangrando… sei lá, vai ver eu sou seu anjo da guarda – Ela responde meio que  querendo se esquivar da pergunta e com um sorrisinho sacana na boca – Por falar nisso, cara, que tipo de “super-encrenca” você se meteu dessa vez?

- Eu teria que passar uma semana lhe explicando – Eu respondo todo errado e sem jeito – Mas, mais uma vez obrigado por ter me salvado! De novo! Tenho que parar de te fazer me salvar toda vez. Quanto tempo eu fiquei aqui, me recuperando?

- Uma semana inteirinha – responde ela, já entrando no carro – enquanto isso eu providenciei um mecânico para o seu bebezinho aqui, você me deve uns mil e quinhentos dollares, mil pelo conserto e quinhentos para o mecânico se calar por causa dos furos de bala.

- Eu te pago assim que chegarmos numa cidade onde tenha bancos, hotéis e muita cerveja – Eu falo já ligando o carro e saindo dali – Afinal, quem era aquele índio? Atahupama? Atahualla? Sei lá o nome dele.

- Que Índio? Jeff, você precisa descansar mais, seu ferimento na cabeça pode ter sarado, mas acho que rolou uma viagem grande ai – Ela fala enquanto liga o rádio.

Nós chegamos na cidade e ela entra naquele carro luxuoso dela, depois de receber meus mil e quinhentos ela vaza dali, e eu fico me perguntando, como é que ela sabe sempre onde eu estou. Daquela vez com o Murdock ela me salvou, mas eu pensei que foi você quem tinha pedido a ela, Nick, mas você não fala com ela já faz alguns meses, e agora de novo. Acho que tem algo de muito estranho com ela, mas eu não reclamo, enquanto ela me salvar está bom, eu vou acabar me acostumando.

Pois é irmão, saí do hospital e aconteceu isso tudo comigo, aonde vocês estão? O quê? Um troll? E comeu o Mustang de May? Caralho meu irmão! Mas vocês mataram o infeliz? Certo, aonde vocês estão mesmo? Shawneetown, Illinois, ok, vou desligar e já estou indo para ai, não saiam daí que eu vou pegar vocês, falô.

Mas a tranqüilidade estava com os segundos contados. Quando eu chego bem perto do Vale, minha querida namoradinha, minha pick-up foi alvejada por muitos tiros de uma metralhadora muito poderosa, os dois pneus traseiros estouram e eu tenho que encostar para não capotar. Depois de encostar e me esconder atrás da pick-up, os tiros de metralhadora cessam.

I am trouble

Comecemos como todas as milhares de histórias contadas em todo o mundo começam: a moça conhece o rapaz que vai mudar sua vida.  Poderia até ser a introdução de um lindo conto de fadas estilo Disney, com um monte de esquilinhos fofos e passarinhos coloridos. Ou quem sabe um romance moderno, desses estilo Julia Roberts de ser – a cinderela moderna que na verdade é uma garota de programa com mais valores morais que eu ou você. Eu poderia ser a incompreendida, tosca e carente mocinha que se apaixona pelo vampiro boiola que brilha no sol como uma drag queen em parada gay. Quem sabe até mesmo uma dessas mulheres sofridas, com problemas mentais, ou sentimentais profundos desses dramas cabeças que as pessoas assistem para se acharem mais inteligentes, mas que ninguém gosta de verdade, e que as atrizes fazem para as pessoas acharem que são melhores atrizes do que o são de fato. Só que, meus queridos, a verdade é bem mais simples: eu não sou nada disso.

Eu sou uma garota bem normal, nenhum traço remoto de heroína romântica – sinto em desapontá-los. Apenas igual a qualquer uma das moças que atendem em uma lanchonete ou loja da cidade. Do mesmo jeitinho de milhares de estudantes de qualquer coisa na faculdade mais próxima.  Ouço o que a maioria da minha geração ouve: um bom rock dos anos 80 e 90, uma ou outra banda que se salve hoje em dia. Vejo os filmes que todo mundo vê (secretamente acho o Leonardo de Caprio versão mais velha um charme =P). Leio os quadrinhos que todo mundo lê. Como a mesma porcaria enlatada e cheia de conservantes, o mesmo fast-food que anuncia em todos os lugares. Uso os mesmos jeans que todo mundo, as mesmas jaquetas. Uma entre muitas, exceto por dois detalhes. Minha aparência, sou meio dentuça e apesar de ascendência chinesa, meus olhos são verdes (nada demais). E o outro, e mais interessante fator: venho de uma família de Caçadores.

Ok, não é aquele pessoal maluco do Texas, Tenesee, ou qualquer outro lugar cheio de caipiras que entra no mato para atirar no primeiro animal fofinho que vir. A minha família Caça para valer, o que significa, rastrear, encurralar e matar qualquer criatura sobrenatural que um dia pense em ferir um ser humano. Por criatura sobrenatural eu quero dizer aquelas coisas que todo munda acredita serem contos de terror da sessão de filme trash da sexta, “Contos da Cripta”: vampiros, lobisomens, fantasmas, bichos-papões, essas criaturas que você rezava para que não estivessem embaixo da sua cama quando você era pequeno, e por um puro golpe de sorte talvez não estivessem. Pessoas normais ao se deparar em uma situação em que fiquem frente a frente com algo que vai te dilacerar, correm, rezam, choram, ou tudo isso junto, mas não eu ou minha família. Não, senhor, nós orgulhosamente, doidamente se você preferir, corremos na direção do monstro empunhando o que acharmos que pode feri-lo. E não paramos até que um dos dois esteja morto. Alguns vêem nobreza nisso tudo, para mim, é uma compulsão. Eu simplesmente não posso deixar que uma criatura faça com outra pessoa o que fez com minha família. Pode ser idiota, mas não consigo continuar vivendo sabendo que existem pessoas boas que terão seus lares desfeitos por algo que não deveria existir. E assim que eu penso hoje em dia. Mas um dia eu fui uma “virgem” para esses assuntos, como você.

Tudo mudou para mim após o funeral da minha tia, meus pais haviam morrido anos antes e eu fui criada por ela. Tia Mei-Mei era forte como um touro e teimosa como um elefante, eu achava que ela fosse viver para sempre. Mas estava enganada, a vida dela foi ceifada por alguma coisa que entrou em nossa casa à noite. Eu acordei de madrugada com o som de luta e mesmo na escuridão pude ver as garras da criatura enterrando-se no peito da minha tia. Lógico que eu nao acreditei nos meus olhos. Enterrei minha tia com dignidade e com todos os rituais necessários e fiquei em companhia do meu tio Cheng que acabava de chegar da China.

Na mesma semana tio Cheng teve um AVC. Eu estava destrocada com tudo isso. Foi quando conheci no hospital um lindo homem louro que ia mudar minha vida. Ele se aproximou de mim com um papo meio bobo de que também tinha um parente internado, assim que o vi pensei: “ele vai estar entre meus lençóis antes que perceba.” Eu realmente me sentia sozinha e perdida com o mundo girando ao meu redor, era bom ter alguem com quem falar depois das longas horas de espera no hospital.

Os médicos disseram que meu tio estava com um tipo de paralisia raro, e misterioso. Tudo o que me restava fazer era esperar, então fui até a casa dele para buscar roupas e alguns objetos. E lá havia algo mal, não como o moleque da vizinha que faz bombas de bosta, aquilo que faz os cabelos da sua nuca arrepiarem e os joelhos virarem gelatina. Era uma mulher de cabelos negros, rosto queimado, e que se mexia como não é possível se fazer. Um rancor. Muito, muito pior que Ju-on, se é agoniante o filme, imagina ter aquilo querendo te estrangular? E então, meu cavaleiro salvador chegou em seus jeans puídos e uma camisa de flanela fora de moda, apontando para aquela coisa uma espingarda de cano duplo cerrada de cujo cano saíram dois potentes tiros de sal. Nosso primeiro encontro foi no cemitério para onde eu dirigia como louca ao meu lado os ossos do espírito vingativo. Precisei ler algumas orações budistas em chinês enquanto ele atirava no fantasma, por fim incendiamos seus ossos e jogamos sal por cima.

Por isso, minha vida mudou. E por isso hoje eu vivo procurando coisas saídas dos pesadelos, mas ao invés de correr, meu trabalho é matá-las, para que você continue feliz em sua vida cotidiana.

Sangue no asfalto

Por Jeff Samson

26 de Agosto de 1999. 11h53 PM, Odessa, Texas.

Em três anos de carreira na SWAT, nunca tremi tanto e corri tão desesperado para encontrar o amor da minha vida, Madison. Ela me avisou muito para não ir e eu não precisava mesmo ter atendido aquela porra de ligação, mas era um grande amigo meu, o detetive Bill Davidson, que estava em apuros e precisava da minha ajuda. Daí Jeff, o grande “herói”, apenas com sua Magnum .40 e cinco balas, deixou sua mulher – seu maior tesouro – em casa, achando que  a treta não era grande. Como eu fui idiota.

Às oito e meia da noite, cheguei num armazém abandonado ao sul da cidade, onde encontrei o Bill escondido atrás de uma árvore com seu revolver calibre 38, tremendo e ensopado de suor. Ele disse que estava prestes a capturar o  “Cats Claw”, como era conhecido um assassino serial que já mandara oito pro saco em um mês sem ser apanhado, sem rosto e sem nome, praticamente um fantasma. Na investigação, meu amigo começou a seguir um cara suspeito em uma boate vagabunda. Depois de algumas doses de uísque, o sujeito saiu com duas vadias e Bill o seguiu até este armazém, onde ouviu gritos das garotas e um rugido assustador, tipo um cão feroz. Talvez o maníaco usasse o bicho para se livrar dos corpos, ou seja lá o que aquele doente fazia. Eu queria acreditar nessa merda enquanto prosseguíamos, mas não se podia ouvir latidos lá dentro, só o som da carne sendo rasgada e grunhidos de uma fera que começaram a endoidar a gente.

Madison
Madison

Bill não queria a polícia envolvida ainda. Ficou com medo de não dar certo e ele ser taxado como louco por isso, então preferiu me chamar. Eu, já impaciente com a situação, preparei a arma, e comecei a invadir o local. Bill me acompanhou, cobrindo a minha retaguarda. Invadir uma área perigosa sem apoio, medidas preliminares e eliminação de riscos era algo totalmente fora do nosso estilo, e aquilo me deixava nervoso, especialmente com o fato de que entrávamos nos domínios de um assassino doido que rosnava como um rottweiler – ali ele estava em casa e nós, no escuro.

Entramos pelos fundos do armazém, o mesmo caminho que o assassino pegara. Bill respirava muito alto e tremia muito, por isso o que quer que estivesse lá dentro sabia que nós estávamos invadindo e parou com o barulho. Tentei acalmar Bill com um olhar severo e me pus à frente, vigiando à frente e em cima, enquanto ele cuidaria da retaguarda e dos flancos.

No vão principal, muito sangue, lixo e pedaços de carne humana no chão. Serial Killer é pouco: o sujeito era uma versão espalhafatosa do Hannibal, isso sim. Enquanto eu analisava o sangue ainda fresco, Bill se recostou em mim, tremento e resfolegando como em um choro amedrontado. Olhei para trás a tempo de vê-lo ser arremessado sobre um amontoado de barris e caixotes perto da parede à direita. Fora pego por um brutamontes de quase dois metros de altura vestindo em trapos, com cabelos na altura do ombros, olhos amarelados e presas. Ele estava banhado em sangue e ainda mastigava um pedaço de carne, sorrindo debilmente pra mim.

– Parado aí, amigo! – voz de prisão de praxe. A coisa inclinou sua cabeça para a esquerda e, em uma nesga de sorriso, murmurou minhas palavras como se duvidasse delas, e veio lentamente em minha direção. Sem pestanejar meti três balas no seu peito, mas o cara tinha o peito de aço! Ele nem pareceu sentir os tiros que derrubariam até um elefante, e continuou a se aproximar ainda sorrindo. Estarrecido como eu estava, quase nem ofereci reação quando ele me segurou pelo pescoço e me ergueu com apenas uma das mãos, enquanto suas unhas de gato estraçalhavam a pele do meu braço direito. Eu não podia gritar com seu aperto, mas Bill quebrou uma caixa de madeira em suas costas para chamar a atenção e ele afrouxou. Porém, fui arremessado no velho amigo e nós fomos ao chão feito dois bichos atropelados. O filho da mãe limpou o sangue das mãos e olhou pra mim como se me conhecesse há tempos, mas eu não fazia a menor ideia do que era aquela merda toda.

– Você é filho do maldito Tony Samson, né? Parece que nossas linhagens se cruzam de novo, veja só.

Apavorado que estava, não ouvi direito mais nenhuma palavra que ele continuou a falar sobre mim e meu pai e estendeu suas garras na nossa direção. Bill tinha quebrado a perna esquerda na queda e parecia prestes a apagar, nos tirando as chances de puxar o carro. De repente um estrondo nos deixou com o ouvido zunindo, e tivemos a impressão de ver a coisa sendo baleada nas costas e fugir como um cão ferido. Nosso salvador, um velhote com a cara bastante marcado, me levantou e ajudou a fazer uma tala na perna de Bill.

– Leve seu amigo para o hospital, garoto – disse ele – Eu assumo daqui.

Harvey
Harvey

Antes de sair, ele ainda me jogou um cartão com o nome Harvey Rickman e um número de telefone. Ao chegar no hospital com Bill e encaminhá-lo, liguei para o sujeito, que me disse estar seguindo os rastros do assassino. Lembrei que a coisa parecia me conhecer – e ao meu velho – e mencionei isso a ele, e Harvey disse que a criatura poderia querer retaliar a mim ou a algum ente querido, porque provavelmente saberia onde eu morava. Imediatamente pensei em Maddie, que agora corria perigo. Corri para o carro e enquanto dirigia para casa, liguei desesperadamente para saber se estava tudo bem com ela, mas ninguém atendia. Descontrolado, bati com a picape em um ônibus e entrei de vez em uma loja.

Eu estava tonto e machucado, mas não podia apagar de jeito nenhum. As pernas funcionavam, saí mancando feito um louco, correndo a pé. Chegando em casa, tudo revirado, a porta arrombada e a janela quebrada. “Fugiu, boa garota”, pensei. Avistei rastros de sangue, rezando para que fossem do maníaco, e os segui pela vizinhança que dormia sem saber do demônio que rondava o bairro. Na rua de trás, avistei Harvey esbaforido e tive a pior visão da minha vida, que destruiu de vez o cara feliz, um amoroso marido e um policial exemplar que eu era até então.

Maddie estava em cima de um carro, vermelho do sangue da minha mulher, com o homem uivando sobre seu corpo.

Eu estava quebrado. Enquanto corria debilmente em direção a ela, Harvey atirou meticulosamente na testa e no peito do monstro, que caiu inerte. Eu chorava e uivava a morte da minha esposa, portanto lembro apenas que o velhote disse que não podia ficar para encarar a polícia.

Uma semana depois, o telefone tocou:

– Espero que seja rápido – atendeu um ranzinza Harvey.

– Harvey? É o Jeff, o cara de Odessa de uma semana atrás, lembra de mim? – perguntei, com voz trêmula e rouca.

– Ah… Que merda, moleque! São seis horas da madrugada cara, o que você quer?

– Eu cansei de sofrer pelo que aconteceu, quero saber o que era aquilo, por que matou minha mulher e o que tinha a ver comigo.

– Heh, muito bem, muito bem. Qual a sua profissão, garoto?

– Caí fora da SWAT, senhor – disse com alívio – por quê?

– Muito bom, porque a minha profissão é a melhor para alguém na sua situação. Venha para cá, deixe sua vida aí em Odessa, traga suas coisas para entrar em uma nova merda. – parecia até que o velhote estava feliz com a notícia.

– Já tô na estrada – desliguei.

Ganhei o mundo a bordo da minha velha picape preta reformada, agora com o nome de Devil´s Dick – meu jeito de dar um foda-se ao mundo –, escutando Cash e com a foto de Madison pendurada no retrovisor, sorrindo pra mim como sempre vai ser nos meus pensamentos.

– Acho que o Harvey só não te ensinou uma coisa.

– O quê?

– A prestar mais atenção na vigília. Só escutei isso tudo porque você me pagou aquelas cervejas, mas já é quase hora do fantasma atacar.

– Três da madruga,certo?

– E meia.

– Até agora nada. Tá sentindo esse frio desgraçado?

– É ele. Vamulá.

– Espera aí Marshall, você… Porra, sua piranha lésbica! Urgh!

Caso Wendigo

Por Angela Spica

1. Universidade de Yale, New Haven, NY.

•    Manifestou-se em um pequeno vilarejo próximo à reserva indígena de Genaseo, mais exatamente no alojamento de pesquisa da universidade de Yale.
•    Matou, de maneira brutal e violenta, quase toda a equipe de pesquisa. Os corpos foram devorados parcialmente, e boa parte deles estava desaparecido – mas a quantidade de sangue no lugar não deixava dúvidas de que estivessem mortos.  Houve uma sobrevivente: eu.
•    Os locais atribuíram o ataque a animais selvagens, alegando que esses acontecimentos não eram tão raros assim. Foram feitas pesquisas nos jornais mais antigos da cidade e descobriu-se que havia um padrão: os ataques aconteciam no ciclo de 10 anos.
•    Foi coletado material para análise genética posterior (saliva encontrada nos pedaços de corpos das vítimas). Depois da análise, descobriu-se um DNA muito próximo ao de um ser humano, mas com diferenças significantes. Os dados foram arquivados para uma possível análise comparativa posterior.

2.    Reserva Genaseo – não muito distante do vilarejo

Wendigo•    A atual localização do vilarejo era parte, há muito, de uma grande comunidade indígena. Houve intervenção governamental e as terras reservadas foram diminuídas. Imaginou-se que alguém poderia saber de alguma coisa na reserva propriamente dita.
•    Conversas com os índios (Matt principalmente; seu nome indígena era quase impronunciável, preferi usar o nome com o qual ele se identificou nos registros da reserva) mencionaram o wendigo: um ser humano que, em situações desesperadoras, foi obrigado a cometer canibalismo (normalmente essas coisas acontecem no inverno). O ato deixou-o louco, e também o fez adquirir capacidades sobre-humanas (força e agilidade descomunais, e, de acordo com os relatos, a capacidade de imitar as vozes daqueles que foram devorados).
•    Matt convenceu outros guerreiros de sua tribo a se juntarem e destruírem, por fim, a criatura.

3.    Plano de Ação

•    Eu servi de isca para a criatura – situação muito desconfortável, vale salientar. O wendigo é uma criatura que hiberna, e se não fosse feito logo, ele tornaria ao estado de hibernação. Eu, junto com Matt e um outro habitante da aldeia, fizemos um acampamento para atraí-lo.
•    Os outros membros ficaram à espreita, esperando. A criatura se aproximou pela copa das árvores e me agarrou pelos braços – o que me rendeu alguns arranhões, nada demais. Os outros então atiraram-lhe fogo com tochas e lança-chamas improvisados e depois de muita luta, conseguiram destruir a criatura.
•    Os índios não me permitiram tirar nenhuma foto, mas eu gravei um vídeo discretamente com o celular. Deverá ser arquivado para referências posteriores.

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